O Rosto da Vergonha I

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Era uma tarde fria de fevereiro de 1967. A praia estava deserta e a brisa ligeira intensificava o cheiro a maresia no ar.

Maria Fernanda contemplava o mar, imaginando se haveria no mundo um pôr do sol tão magnifico como o da Ericeira.

Para ela, aquela vila era mágica!

Aquele mar que já tinha banhado aristocratas no passado e que atraía tantos banhistas durante a época balnear, fascinava-a.

Sempre que podia, pedalava cerca de 2Km para o ver. Era a distância que separava a casa do mar. A sua irmã não gostava que fosse para a praia sozinha, mas o facto de ter deixado a escola cedo para ajudá-la nos petiscos da taberna, afastou-a da maioria das colegas.

O mar, além de fiel amigo e confidente, era agora o seu refúgio. Como iria demover a irmã da ideia de a querer casar com Augusto Joaquim?

-É um bom homem. Trabalha lá na Alemanha, tem dinheiro, casa montada … com tantos portugueses que vão para lá agora, empregas-te numa taberna a fazer petiscos cá da terra e tens o futuro garantido. – Dizia-lhe Emília.

Augusto Joaquim tinha emigrado para a Alemanha. Já lá vivia há um ano e ao que parece estava a dar-se bem. Tinha vindo a Portugal tratar de uns documentos, a sua estadia não seria superior a uma semana. Aproveitava para ir à taberna, na esperança de rever alguns conhecidos e foi lá que reparou na beleza de Maria Fernanda.

Os fracos recursos dos pais da rapariga fizeram com que fosse entregue muito nova à responsabilidade da irmã mais velha.

Emília, a sua irmã ajudava o marido na taberna. Desde cedo perceberam que Nanda tinha mão para a cozinha. E aos poucos, os petiscos foram aparecendo.

Luís Filipe concordava. Dizia que não havia petiscos na vila como os da Nandinha. Como o dinheiro era pouco, pedalava todos os dias na sua pasteleira até à taberna. Quer chovesse ou fizesse sol, Luís Filipe não falhava um único dia.

Era bom rapaz. Trabalhava na oficina de uma aldeia próxima e aos fins de semana ia para o mar com o padrinho. Ajudava muito os pais e era estimado por todos os que o conheciam.

– Não é homem para mim porquê? – Questionava-se Maria Fernanda – Porque tem as mãos sujas de óleo, ele trabalha na oficina, tem que ter. Porque não tem motorizada!… Tem bicicleta e a camioneta também nos leva a todo o lado.

Insegura quanto à decisão a tomar, pedalou de regresso a casa.

A casa era nas traseiras da taberna. Quando regressou, lá estava Augusto Joaquim à conversa com a irmã e o cunhado.

Olhava para ele e o seu coração nada sentia.

Era mais do mesmo. Igual a tantos outros que ali entravam diariamente, com uma diferença. Enquanto os outros nada mais falavam do que das alegrias e desilusões do futebol, este vangloriava-se da vida que levava na Alemanha e constantemente fazia comparações entre o que lá havia e a tristeza que era Portugal. Quando Nanda, a irmã e a sobrinha se afastavam, falava de mulheres. De como eram permissivas e desinibidas. Contava episódios de cariz sexual, que sempre que escutados atrás de uma porta por Maria Fernanda a deixavam enojada.

Augusto Joaquim pedira a mão de Maria Fernanda a Emília e João, a irmã e o cunhado que a criavam como filha. Como se mostrava muito empenhado em causar boa impressão ao casal, não forçava situações para estar sozinho com Nanda, como carinhosamente era chamada pela família e clientes habituais. João, o cunhado, disse-lhe que talvez fosse melhor ele ter calma e não falar já com Nanda.

O olhar de Augusto Joaquim enojava-a. Ela lia-lhe o pensamento e imaginava-o a fazer com ela o que dizia fazer com as alemãs.

Maria Fernanda era pura, guardava-se para o casamento. Mas ao desejar um homem, esse homem seria com certeza Luís Filipe. Ao imaginar umas mãos masculinas que lhe tocassem, preferia as mãos mal tratadas e encardidas de Luís Filipe, àquelas mãos completamente limpas, mas que lhe pareciam tão sujas.

Os dias passaram, Augusto Joaquim regressou à Alemanha.

Fizeram-se obras na taberna. O espaço tinha-se transformado em Casa de Pasto e passou a ser frequentado também por senhoras.

Maria Fernanda não tinha qualquer remuneração, nem tinha coragem de abordar o assunto com a irmã. Sentia que ela e o cunhado a tinham criado, portanto era sua obrigação trabalhar e ajudá-los para os compensar.

Mas e no futuro? Como iria ser?

                                                          *                      *                       *

Todos os meses recebia cartas de Augusto Joaquim. E mesmo quando não queria responder, era obrigada pela irmã a dizer uma ou duas frases para compor a resposta à missiva recebida. Não era preciso dizer muito, porque ao fim de contas, quem respondia era a irmã, o texto era todo dela. Emília ditava e a filha Maria Helena escrevia.

Como Maria Fernanda tinha pouca instrução e nenhum interesse em Augusto Joaquim, também não mostrava interesse em participar.

– Nanda, achas que está bem assim, queres acrescentar alguma coisa? – Questionava Emília perante o desinteresse da irmã.

– Porque é que me estás a perguntar, a carta não é feita por ti? – Dizia Nanda revoltada.

O verão estava a chegar e com ele o movimento extra trazido pelos banhistas, que eram ansiosamente esperados.

Ericeira foi, é e será sempre privilegiada geograficamente. Virada totalmente para o mar, tinha nele o seu grande sustento, mas um sustento que escasseava durante o inverno. O bom tempo além de permitir que os homens da terra fossem para o mar, ainda trazia os banhistas que gastavam dinheiro em terra. Eram muito visíveis as desigualdades sociais entre banhistas e locais. E eram essas diferenças que atraíam Maria Fernanda. Gostava de passear pela praia apreciando as senhoritas que passeavam pelo areal. As senhoras já tinham substituído o fato de banho pelo biquíni. E muitas fumavam enquanto passeavam.

Nanda deixou de trabalhar a tempo inteiro na taberna entretanto transformada em casa de pasto, quando enfrentou a irmã e lhe disse que Augusto Joaquim a enojava e preferia a vida num convento a casar-se com ele.

O seu trabalho passou a ser feito em casa. A lida e os petiscos eram o dia a dia de Maria Fernanda. Foi a forma que a irmã arranjou para travar qualquer aproximação com Luís Filipe.

Ocasionalmente a sobrinha Maria Helena servia de pombo correio, o que nem sempre era fácil devido ao controlo insistente da mãe.

Como não lia as cartas de Augusto e fazia questão de mudar de divisão sempre que a dita pessoa fosse tema de conversa, nem se apercebeu que ele chegaria logo no final de julho.

Aproveitando o distanciamento da irmã com Luís Filipe, e para preparar o regresso de Augusto Joaquim, Emília contou à família que tinha ouvido dizer que o jovem estava noivo.

A noite foi longa e Nanda tinha esgotado as lágrimas. Após uma longa conversa com a irmã, compreendeu que Augusto poderia dar-lhe uma boa vida.

No dia em que ele chegou, sentada ao lado da irmã, participou nas conversas sobre a Alemanha. A sua cultura não era muita, mas tentou explorar alguns assuntos que dominada. Comidas, clima, se havia portugueses na cidade onde ele vivia, se havia mar…mar, o seu amigo e confidente.

Nos poucos minutos que estiveram sozinhos, Augusto Joaquim perguntou-lhe se aceitaria casar com ele. Ela esboçou um sorriso nervoso, olhando-o de forma pensativa.

A irmã apercebendo-se do pedido e antes que Nanda respondesse propôs um brinde aos noivos.

Durante esse mês conheceram-se melhor. Falaram da vida e das expetativas. Continuava a achá-lo sabichão, como tantas vezes o chamava em conversas com a sobrinha, mas ao mesmo tempo permitia-se a si mesma tentar encontrar-lhe virtudes.

Sem querer, constantemente o comparava a Luís Filipe e questionava-se se o caminho que estava a escolher seria o mais acertado.

Emília, que a conhecia como ninguém, dizia-lhe para não se preocupar, porque o amor vinha com a convivência. Quando começassem a construir uma vida a dois, quando os filhos chegassem, tudo seria diferente.

Maria Fernanda encolhia os ombros e gesticulava com a cabeça como que confirmando a afirmação.

– Então como vai ser? – atirou ela, tentando alterar o tom sentimental da conversa.

– O Augusto Joaquim diz que o casamento tem que ser já em Dezembro. No próximo ano não pode vir a Portugal. – Respondeu Emília.

– Não pode vir? E eu? – Questionou Maria Fernanda de forma assustada. Como é que ele este ano já sabe que para o ano não pode vir? E eu?

-Então, tu estás lá com o teu marido.

– Eu não quero estar lá tanto tempo sem vir a casa.

– Mas lá vai passar a ser a tua casa.

– E se eu não gostar, e se eu não conseguir falar, e se …

Emília cortou a conversa.

– Mas tantos “ses”. Se, se, se. Tens o teu marido, ele vai passar a ser responsável por ti.

Havia algo em Augusto Joaquim que causava desconforto a Maria Fernanda. Ela não confiava nele e receava ir para tão longe com uma pessoa que mal conhecia.

Augusto sugeriu que alugassem o vestido.

Quando ouviu a conversa, Maria Fernanda numa explosão comentou:

– O Augusto Joaquim disse, o Augusto Joaquim acha, o Augusto Joaquim decidiu… Quando é que isto acaba? Ele decidiu que quer casar comigo, e vai casar. Ele decidiu que o casamento será em Dezembro, e vai ser. Decidiu que não vai haver convidados, e não terei convidados. Agora também decidiu que me casarei com um vestido alugado? O que é que se passa? Não te estou a reconhecer? – Explodiu Maria Fernanda questionando a irmã.

– Tu devias era dar valor ao noivo que arranjaste. Já falei com o teu cunhado, no fim do mês vamos tratar do vestido

– Sim… decidam tudo e digam-me o dia em que tenho que o vestir.

Maria Fernanda saiu. Disse que ia ver o mar.

– Não te esqueças que estás noiva, não podes andar por ai como se não fosses comprometida, o que é que o …

Maria Fernanda concluiu a frase.

– O que é que o Augusto Joaquim vai pensar, certo? Era isso que ias dizer, não era? Pois ele que pense o que quiser! – e saiu deixando a irmã a resmungar com a pequena Maria Helena.

O facto de ser eternamente grata à irmã e ao cunhado que a tiraram de uma vida de miséria, fazia com que os respeitasse muito. Mas como poderia viver longe da Ericeira, era a pergunta que assombrava os seus dias. Ir para a Alemanha parecia-lhe surreal!

Emília tentava junto de Augusto perceber que vida teria ele para oferecer à sua irmã. Onde iriam morar, que dinheiro tinha…

Tão esperta que era, uma verdadeira matriarca que controlava a casa, a família e o negócio e não percebeu que as respostas esquivas e o desviar de assunto sempre que se falava em dinheiro poderiam indiciar algo.

Tão embevecida estava, que não achou estranho o facto de Augusto não querer uma boda, apenas um simples almoço para a irmã, cunhado e sobrinha. Com muita insistência de Emília o amigo Marcelino foi convidado. Também não achou estranha a falta de vontade em comprar em Portugal o que quer que fosse, sempre com a desculpa de que na Alemanha era melhor.

Os sinais estavam lá, mas o encantamento era tão grande que não foram compreendidos.

Augusto Joaquim regressou a Alemanha e o verão chegava ao fim. Fizeram-se as grandes limpezas na casa de pasto e chegava a altura de preparar o casamento. Não havia muito a preparar. Alugar um vestido e escolher um restaurante.

                                         *                                             *                                               *

Nem a beleza natural de Nanda conseguiu sobressair naquela manha escura e fria de Dezembro. O casamento e o almoço realizaram-se em Óbidos. Se os restantes irmãos de Emília e Nanda, assim como os pais não tiveram direito a convite, muito menos amigos. À exceção de Marcelino, não havia convidados.

À porta de uma pequena pensão onde iriam passar a noite de núpcias despediram-se dos presentes. Irmã, cunhado, sobrinha e o amigo Marcelino regressaram à Ericeira e apesar de Maria Fernanda continuar a não confiar em Augusto Joaquim, estava longe de imaginar o quão longa e sofrida seria a sua noite e o pesadelo em que se iria tornar.

O segundo capítulo no próximo domingo…

                                            *                                         *                                           *

Um dos exercícios do Era Uma Vez é mostrar o alcance prático das cartas do tarot. Hoje selecionamos:

6 Espadas – Conhecida como a carta do emigrante. Um momento de mudanças, sejam elas físicas ou emocionais. Época de transição.

5 Ouros – Carência, fracos recursos, dificuldades financeiras, miséria

9 Copas – Comes e bebes, restauração

Enamorados – Amor

3 Espadas – Dor, sofrimento, desgosto

Rainha de Copas – Sensibilidade e intuição, a rainha da água, a ligação ao mar

Cavaleiro Espadas – Feroz, por vezes agressivo, decidido, faz o que for preciso para alcançar os objetivos.

Rei Ouros – Homem de negócios, financeiramente estruturado que dá importância à família

3 Copas – Celebração, festejo, comemoração

 

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6 respostas a O Rosto da Vergonha I

  1. Olga Ferreira diz:

    Bela historia!! Fico ansiosa pelo final!! Quantas Nandas andam por ai?! Obrigada e parabens por mais este trabalho maravilhoso (^_-)

    Liked by 1 person

    • tarotelivrearbitrio diz:

      Obrigada Olga. Este foi apenas o inicio, mas posso assegurar-lhe que a história irá retratar o pior do ser humano e dará que pensar “se os fins justificam sempre os meios”
      Um beijinho

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  2. Nair diz:

    Muito bom o aguardo o próximo

    Liked by 1 person

  3. Maria do universo diz:

    Sensacional. Sem duvida, todos os domingos estarei aqui. Fiquei curiosa. Muitos parabéns. Mais um sucesso.

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