O Rosto da Vergonha III

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Waltraut retribuiu o sorriso e entrou.

Maria Fernanda, num misto de apreensão e espanto, não sabendo o que fazer, deixou-se estar encostada ao fogão. Não compreendia o porquê daquela mulher em roupão estar, na agora sua casa. Vinha de uma pequena vila onde as mulheres se resguardavam. Para ela, seria impensável em Portugal uma mulher bater à porta de casa de alguém em robe, entrar e instalar-se.

– Riecht gut!- Disse Waltraut, olhando para Nanda.

Maria Fernanda nervosa, não fazendo a mínima ideia do que aquilo significava, não sabia se havia de ficar séria ou sorrir.

– Está a dizer que cheira bem, vamos convidá-la para jantar! – Nanda percebeu que não era uma pergunta, mas sim uma afirmação, o que Augusto Joaquim acabara de dizer.

– Talvez outro dia, estou cansada da viagem! – Disse Nanda desconfortável com a situação.

– Estás cansada, depois de comeres vais para a cama. Tens que começar a conhecer as pessoas – Augusto Joaquim rapidamente resolveu o assunto, não dando hipótese a Nanda de dizer o que quer que fosse.

– Sie werden alles essen? – Waltraut olhava espantada para o tacho.

-Das ist ein portugiesisches gericht! – Augusto Joaquim dizia a Waltraut que era comida da sua terra, respondendo ao espanto da senhoria que lhe perguntava se iam comer aquilo tudo.

Waltraut estava espantada a olhar para tudo o que Nanda tinha cozinhado para o jantar. Parecia um almoço. Na Alemanha não havia o hábito de jantar. A refeição da noite era chamada de abendbrot – pão da noite – carnes frias acompanhadas com pão.

Sentaram-se à mesa e embora Waltraut tivesse sempre um olhar simpático, Nanda sentia-se desconfortável com toda a situação.

A sua cabeça parecia pronta a rebentar a qualquer momento. Além do cansaço da viagem, o desconforto e a revolta em ver o seu marido completamente deslumbrado pela alemã de roupão. Duas horas de jantar, onde poucas vezes se dirigiram a ela. Sem dar conta e não aguentando mais o cansaço, os seus olhos foram fechando. Ela queria fugir dali, mas como o apartamento não tinha quarto, não tinha coragem de abrir o sofá cama e deitar-se.

Quando Augusto Joaquim finalmente disse para abrirem o sofá, ela arrastando-se devido ao excesso de cansaço, preparou-se para ajudá-lo. De forma simpática ele encaminhou-a para o quarto de banho, de forma a que se lavasse e pudesse vestir o pijama.

Deixou-se lá estar na esperança de Waltraut sair, como não aconteceu, ela acabou por sair do quarto de banho, constrangida por estar em roupão frente a uma desconhecida.

Queria agarrar nas malas e regressar a Portugal, queria ter forças para se impor, mas nem uma palavra lhe saía.

Augusto Joaquim encaminhou-a ao sofá cama e disse-lhe para se deitar.

– Então e ela, não se vai embora? – Perguntou Nanda a medo.

– Gute Nacht – Waltraut sorriu para Nanda

– Ela está-se a despedir, diz-lhe boa noite. Deita-te e não te preocupes com ela – Respondeu-lhe o marido.

– Boa noite! – Maria Fernanda pronunciou a medo o “boa noite” não compreendendo o que aquela mulher continuava lá a fazer.

A sua primeira noite na Alemanha foi num sofá cama, partilhado pelo marido e pela senhoria. Virada para a parede, costas voltadas para o marido e esforçando-se por controlar quer o choro, quer o desespero ao sentir as respirações ofegantes e o movimento do colchão, do mesmo colchão onde estava deitada. A noite foi longa! O cansaço era tão grande que adormeceu logo que a movimentação ao seu lado terminou.

Quando acordou, a medo, olhou em redor. Apenas o marido estava em casa. Sentiu o cheiro a café.

– Dormiste bem? – Perguntou-lhe Augusto Joaquim.

Ela olhou para ele e não sabia o que sentia. Nojo, medo, repulsa.

– Dormiste bem, sim senhor, até ressonaste que eu ouvi. – Nanda seguiu para o quarto de banho sem lhe responder.

O dia foi para conhecer a cidade. Não se falou sobre o que tinha acontecido na noite anterior. Augusto Joaquim foi-lhe explicando como era importante ela aprender a língua. Aos poucos foi-lhe ensinando palavras básicas. Maria Fernanda quis fazer algumas compras para a casa, mas percebeu que o dinheiro era pouco. Tal como desconfiava, o dinheiro que Augusto Joaquim dizia ter e que fez com que a sua irmã

achasse que ele seria um bom partido, não existia. Tudo encaixava. O não querer fazer compras em Portugal, a casa humilde onde estavam a viver e até o facto dele não se mostrar disponível para comprar algumas coisas que ela achava essenciais para a cozinha. Mentiras atrás de mentiras!

E agora, o que poderia fazer?

Ja, nein, danke, foram as suas primeiras palavras em alemão. Sim, não, obrigado.

Os dias foram passando e embora Augusto Joaquim não a violentasse fisicamente, fazia-o psicologicamente. As idas de Waltraut lá a casa continuavam.

Maria Fernanda agora vivia numa realidade bem diferente do seu país. As alemãs insinuavam-se e não o faziam de forma discreta. O seu marido gostava e correspondia.

Como voltar para Portugal já não era opção, começou a aceitar aquela vida. Arranjou trabalho numa fábrica, habituou-se ao país e também a viver sozinha, uma vez que o marido empregou-se noutra cidade e só vinha a casa aos fins-de-semana.

Com dois vencimentos Maria Fernanda insistiu para que mudassem de casa. Tinha que afastar definitivamente Augusto Joaquim de Waltraut.

Mudaram-se para um apartamento com mais condições. Tinha dois quartos. Augusto Joaquim dizia que queria uma filha, mas Nanda receava engravidar. Ela continuava a não se sentir confortável com o seu marido. Embora já o tolerasse, havia muitas coisas nele que abominava. Nem o facto de terem mudado de casa alterou o comportamento de Augusto

Joaquim. Por mais do que uma vez Nanda apanhou-o na cave, que funcionava como lavandaria do prédio, onde existiam máquinas de lavar e onde estendiam a roupa. Percebeu que o marido depressa tinha arranjado substituta para Waltraut.

A forma como olhava para as raparigas também lhe causava desconforto e quando o questionava a resposta era sempre a mesma:

– Elas gostam!

As trocas de correspondência com Portugal eram frequentes.

Nanda ia contando o comportamento de Augusto, mas claro que a irmã o desculpabilizava sempre. As culpadas eram sempre as alemãs que eram umas provocadoras.

                                                    *                  *                    *                     *

Grávida de 3 meses, sofreu um acidente na fábrica. O tratamento foi longo e já não regressou. O seu alemão melhorava e começou a trabalhar a dias.

Facilmente arranjou casas. As alemãs gostavam dela. Além da limpeza ainda cozinhava. O seu marido continuava igual a si mesmo. Certa altura, deixou de ir ao barbeiro e passou a ir ao cabeleireiro. Sentava-se na cadeira e enquanto a cabeleireira lhe cortava o cabelo ele ia roçando com a cabeça nas suas mamas. Saía de lá quase sempre careca, mas ele não se importava.

Estava radiante com a gravidez de Nanda. Dizia a toda a gente que ia ter uma filha. Nanda alertava-o muitas vezes para a

possibilidade de ser um rapaz, mas ele nem considerava essa hipótese.

Viajaram para Portugal porque Maria Fernanda insistia em ter a criança na sua terra. Augusto também foi.

Tudo indicava que a criança estava pronta a nascer. Nanda quis parir em casa. Já estava tudo combinado com a parteira. Sentindo as dores, pediu à irmã que a mandasse chamar. Emília fê-lo rapidamente.

Augusto Joaquim estava na casa de pasto com o cunhado. Brindava pelo nascimento da filha e embora o cunhado tal como Nanda já o tinha feito, alertasse para a possibilidade de ser um rapaz, ele recusava essa ideia.

A criança estava cá fora. Emília pediu à filha Maria Helena que fosse avisar que tudo tinha corrido bem.

– A minha filha já nasceu? – Perguntou empolgado Augusto Joaquim – Helena?

– Helena, não respondes ao teu tio? – Perguntou-lhe o pai.

Helena mal deu o recado, correu de volta a casa. Apesar de ter ouvido a pergunta, o recado que tinha era apenas dizer que tudo tinha corrido bem … e foi o que fez.

Augusto Joaquim caminhou para casa dos cunhados e entrou no quarto.

O quarto capítulo no próximo domingo…

                                                                            *       *        *       *

Um dos exercícios do Era Uma Vez é mostrar o alcance prático das cartas do tarot. Hoje selecionamos

A Morte – Mudança, uma nova vida noutro país

A Imperatriz – Gestação, gravidez

O Diabo (aspeto sombra) – Vida sexual pervertida

A Torre – Acidente

3 Copas – Celebração nascimento

Valete Copas – A criança

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6 respostas a O Rosto da Vergonha III

  1. Maria da Luz diz:

    Muito bom, este homem está-se a revelar!

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  2. Maria do Universo diz:

    Forte. Uma história, um retrato? Fico ansiosa pelo desenrolar desta narrativa.

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  3. Maria do Universo diz:

    Bem! pela abordagem, parece-me um retrato vivo…

    Liked by 1 person

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